sexta-feira, 24 de agosto de 2012

Como funciona a radiação para tumores intracranianos

Nos últimos 12 anos, a radiocirurgia tem sido usada como primeira abordagem ou como complemento para tratar tumores intracranianos malignos e benignos
Vladimir Arruda Zacariotti: "em casos de metástases cerebrais de câncer de mama desaparece em poucas semanas com a radiocirurgia, porque as células duplicam rapidamente"
A radiocirurgia é um procedimento que permite uma cirurgia cerebral não-invasiva, ou seja, sem a abertura do crânio, por meio de feixes de radiação. É uma técnica surgida na Suécia na década de 50, mas que alcançou grande desenvolvimento na década de 90, e que é usada pra destruir, por meio de dosagem precisa de radiação, tumores intracranianos que poderiam ser inacessíveis ou inadequados para a cirurgia aberta. É o que explica o neurocirurgião Vladimir Arruda Zacariotti, que se especializou em radiocirurgia na Alemanha e nos Estados Unidos e é um dos pioneiros na área em Goiás, onde realiza a técnica desde o final de 1999. “Mistura-se a precisão da cirurgia e a técnica da radiação na retirada do tumor. O tumor é destruído da mesma forma que se fosse retirado por meio de uma cirurgia aberta”, esclarece.

Segundo ele, existem tumores no cérebro, malignos ou benignos, nos quais o tratamento cirúrgico convencional é difícil ou pode ter muitas consequências deletérias para o paciente, devido às artérias, nervos, e outras vias estruturais que poderiam ser danificadas. Nos últimos 12 anos, a radiocirurgia tem sido usada, em Goiânia, como primeira abordagem, por exclusão ou falhas de outras técnicas, ou como complementos delas, tais como outros tipos de cirurgia cerebral, quimioterapia e radioterapia. “Os alvos de radiação altamente precisos dentro do cérebro são planejados pelo cirurgião com base em imagens, tais como tomografia computadorizada, ressonância magnética, e angiografia do cérebro. A radiação é aplicada vindo de uma origem externa, sob orientação mecânica precisa por um equipamento especializado. Muitos feixes são dirigidos e centralizados na lesão intracraniana a ser tratada. Desta forma, os tecidos saudáveis ao redor da área-alvo são preservados”, relata.

Vladimir esclarece que são os exames de imagem que orientam a quantidade de radiação necessária para tratar cada caso, o que é feito por um especialista em física médica, que se baseará em cálculos complexos. “Não se pode errar, porque a radiação pode paralisar aquela região”, avisa, acrescentando que, para não ocorrer erros, utiliza-se um equipamento chamado anel esterotáxico, que é fixado no crânio do paciente, com anestesia local.

COMO FUNCIONA

A aplicação demora de 40 minutos a uma hora e a radiação vai destruir o DNA da célula tumoral. “No momento em que o tumor se duplicará, o DNA está alterado, o que faz com que ela morra e seja absorvida pelo organismo”, afirma, lembrando que, justamente por isso não é um tratamento rápido e que pode demorar algumas semanas, meses e às vezes, até anos para que o tumor desapareça. “Por exemplo, em casos de metástases cerebrais de câncer de mama desaparece em poucas semanas com a radiocirurgia, porque as células duplicam rapidamente. Já os tumores benignos duplicam muito devagarzinho, por isso, às vezes, eles nem desaparecem por completo, mas param de crescer”, compara.

De acordo com o neurocirurgião, a tolerância à radiação é individual. “Às vezes, a gente acha que o cérebro suportará aquela dose e não suporta e aí o cérebro começa a inchar e a pessoa começa a perder alguma função neurológica”, alerta. No entanto, como a técnica é aplicada sempre dentro de um padrão de segurança, a chance deste problema acontecer é de 1 em cada 300 casos. “Outra vantagem da radiocirurgia é que é um procedimento ambulatorial, quer dizer, o paciente chega na clínica de manhã, faz o procedimento e final da tarde ele já vai embora. Se quiser, no outro dia já pode retomar a rotina normalmente”, garante. “Não exige repouso, não tem risco de sangramento, de infecção, não é preciso retirar os pontos. Os riscos da radiocirurgia existem, mas são infinitamente menores, já que não tem corte”, compara. “Mas é um tratamento que veio para complementar, não é que um vá substituir outro. Tem situações em que o ideal é a cirurgia mesmo”, contrapõe.

Assim, a cirurgia convencional é mais indicada quando o tumor está muito grande, ou mesmo sendo pequeno, atingiu uma área do cérebro importante e está provocando muitos sintomas. “ A radiocirurgia é um tratamento de primeira escolha em tumores pequenos, abaixo de três centímetros, para aqueles casos que não estão muito sintomáticos ainda e naqueles tumores que estão localizados numa área que, para se chegar até eles há o risco de causar alguma lesão irreversível”. Para estes casos, foi desenvolvida a técnica radiocirurgia fracionada, que além de tratar tumores maiores, é indicada para pacientes muito sensíveis à radiação.

Segundo ele, os avanços mais recentes da área, que ainda não chegaram no Brasil, são uma técnica em que não é necessária a colocação do anel esterotáxico no crânio e o uso da radiocirurgia para tratar outros tumores, como do pescoço e pulmão.

Jornal da Sociedade Goiana de Neurocirurgia, agosto de 2012.

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