quinta-feira, 15 de março de 2012

Transtorno do pânico tem tratamento rápido e barato

De acordo com JOÃO ALBERTO DE OLIVEIRA CAMPOS, o
medicamento é fundamental para o sucesso do tratamento




Embora seja um dos transtornos mentais mais incapacitantes, o transtorno do pânico é um dos mais fáceis de serem resolvidos, segundo o psiquiatra e professor de Psquiatria da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Goiás, João Alberto de Oliveira Campos. “Se o paciente segue corretamente o esquema medicamentoso, geralmente em dois anos já pode ser retirada a medicação”,
informa o médico. Confira a entrevista concedida por ele.


Quais as características do transtorno do pânico?
Transtorno do pânico é uma doença do grupo dos transtornos de ansiedade. O que caracteriza o transtorno do pânico são crises agudas, súbitas, que ocorrem a qualquer hora, em qualquer dia e em qualquer lugar, de ansiedade, que nós chamamos de ansiedade paroxística. A pessoa é tomada por uma crise aguda de ansiedade, denominado de ataque de pânico, que dura poucos minutos
ou segundos. Esse ataque pode se manifestar com até 13 sintomas. Os mais frequentes são que o coração dispara subitamente, a pessoa começa a sentir falta de ar, tem uma sensação de tontura, de vertigem, acha que desmaiaará, tem uma sensação de dormência, de calafrios, sensação de
que está perdendo o controle, que ficará louca, um medo de morrer bastante grande e pode ter náuseas e vômitos. Esses sintomas vêm abruptamente, toma conta da pessoa e ela entra num desespero muito grande. Ele é chamado de espontâneo, porque não tem um fator desencadeante, a pessoa pode até acordar tendo ataque de pânico.

As pessoas costumam demorar para descobrir a doença?
Normalmente quando a pessoa é acometida do primeiro ataque de pânico, acha que está sofrendo do coração e procura um cardiologista. Ou acha que está com hipoglicemia e procura um endocrinologisa. Ou acha que está fi cando louca e procura um neurologista e por aí vai. Os médicos dessas especialidades examinam, submetem a exames e não encontram nenhum problema clínico.
Então só resta o aspecto psiquiátrico. Às vezes demora bastante para a pessoa procurar a ajuda correta. Com as repetições dos ataques, desenvolve-se uma fobia grave, que nós chamamos de agorafobia, que é um medo absurdo de fi car em determinadas situações que a pessoa acha que vai passar mal, não vai
ter ajuda e vai morrer. Aí ela começa a não fi car sozinha, não sair sozinha, não ficar em local fechado, não ficar no meio de multidão, não dá conta de viajar. Essa agorafobia que surge em decorrência dos ataques de pânico é muito incapacitante, limita profundamente a qualidade de vida da pessoa,
que perde a capacidade de se reger e perde sua autonomia.

Como é feito o tratamento?
Todos os transtornos psiquiátricos são transtornos bioquímicos cerebrais. As doenças emocionais ou psiquiátricas ocorrem na pessoa por um desarranjo de certas substâncias do cérebro. Normalmente
no transtorno do pânico as três substâncias que são alteradas são a nor-adrenalina, a serotonina e o ácido gama-amino-butírico, que é o sistema gabaérgico. Todos estes transtornos têm um fator genético, a pessoa já nasce com a predisposição de apresentá-los. No caso do transtorno do pânico, as
pessoas acometidas são jovens quando têm o primeiro ataque, uma média de 25 a 35 anos de
idade. Como o transtorno é biológico, usamos certas substâncias que normalizam esses neurotransmissores alterados e num prazo curto, que vai de 15 a 60 dias, a pessoa já fi ca totalmente assintomática, sem os ataques, melhora também a agorafobia e o paciente volta a levar uma vida normal. E o tratamento, que é feito com remédios antigos, baratos, tem que durar no mínimo dois anos, que é para fazer o controle da doença. Depois desse tempo, retiramos a medicação. Eu diria que, dos transtornos mentais, que talvez seja o mais pavoroso pelo medo de morrer que a pessoa adquire, é o de mais fácil tratamento e mais barato, sai uma média de R$ 2 reais por dia de remédio.

Depois de parar o tratamento os ataques de pânico podem voltar?
Se o paciente segue adequadamente o esquema medicamentoso, a possibilidade de recaída é pequena. Em torno de 70% não têm recaída e em torno de 30% podem ter. E se tiver recaída, deve voltar a se tratar e o resultado é muito bom. Não falamos em cura em doenças psiquiátricas porque existe o
fator genético, a predisposição, falamos em controle. Existem casos em que a pessoa terá que tomar o medicamento durante anos para manter o controle dos sintomas, mas a maioria tem uma
resolução muito boa em pouco tempo.

Revista Neuronotícia, fevereiro de 2012.

Nenhum comentário:

Postar um comentário