sexta-feira, 12 de agosto de 2011

A história da TV Anhanguera

Iúri Rincon Godinho

A TV Rádio Clube logo mudou de nome, passando a se chamar TV Goiânia. Ou seja, não demorou para Francisco Braga Sobrinho perceber que rádio era uma coisa e TV outra bem diferente (veja opost anterior). Mas Jaime Câmara, proprietário do diário O Popular e da Rádio Anhanguera, também estava atento àquele novo veículo de comunicação. E não permitiria aos Associados e Braga Sobrinho reinassem sozinhos e soberanos por muito tempo.
 
A supremacia única da TV Goiânia acabou exatamente às 17h45 do dia 23 de outubro de 1963, quando a TV Anhanguera entrou no ar com o programa de 30 minutos A Hora da Ave-Maria, narrado por Sélem Domingos, com texto do jornalista Jávier Godinho, que em 2011 continua escrevendo a atração, mas com menos de três minutos.
 
Pelo menos até 2011, quando este livro foi escrito, nenhum jornalista em Goiás suplantou Jaime Câmara em importância. Ele saiu do nada no Rio Grande do Norte, onde nasceu em 16 de julho de 1909, e ao morrer deixou um império de comunicação. Não sem antes ter sido secretário de Estado, presidente da Associação Comercial, fundador da Federação do Comércio e deputado federal, dentre tantos cargos.
 
Quando criou a TV Anhanguera, em 1963, Jaime já gravara o nome na história. O Popular tinha sido o primeiro diário da capital, fundado em 1938. A Rádio Anhanguera pertencia a ele, que havia ocupado a presidência do extinto Banco do Estado de Goiás (BEG) em 1960 e a prefeitura da capital (1958).
 
O primeiro programa de seu Jaime (como era chamado pelos funcionários), a Hora da Ave Maria, ou Hora do Ângelus, merece um parênteses. Mais antiga atração da televisão goiana ainda no ar, foi uma exigência do seu lado católico. Mas havia um pequeno detalhe: quem escrevia, Jávier Godinho, há muito se rendera ao espiritismo e convenceu o chefe a dar um tom mais ecumênico ao programa.
 
Este personagem, nascido em 27 de novembro de 1936, na Cidade de Goiás, passaria não apenas pela TV, mas também por rádios e jornais. Na empresa dos Câmara trabalhou em quase todos os primeiros programas. Mais tarde foi até comentarista esportivo, além de chefe de reportagem do jornal O Popular.
 
Depois de Sélem Domingos, José Divino passou a ser a voz da Hora do Ângelus. E até 2011, passados mais de 40 anos, Jávier ainda encontra pessoas que dizem que sua voz é linda. A atração continuou mesmo quando Jaime teve de renegociar o contrato com a Globo e abrir mão dos programas religiosos em horários nobres (neste caso, às seis da tarde). Ele simplesmente cortou três minutos de comerciais para que seu primeiro, digamos, filhote televisivo permanecesse no ar.
 
Outra imposição de Jaime foi o serviço de utilidade pública, que colocava na telinha um telefone para a população informar sobre pessoas desaparecidas ou pedindo doação de sangue. Anos depois, quando a Rede Globo cresceu e se tornou líder de mercado, um técnico veio de São Paulo e teve um dura conversa com o empresário:
_ Tenho uma orientação nacional para modernizar nosso trabalho e uma das primeiras coisas que precisamos é acabar com o serviço de utilidade pública.
_ Tá bom, eu tiro. — disse o esperto Câmara, sem se alterar. — Mas se um dia sua mulher ou seu filho desaparecerem não me venha pedir ajuda.
E o serviço de utilidade pública continua até hoje.
A Anhanguera nasceu dando o que falar. Trouxe praticamente a equipe inteira da concorrente TV Goiânia, ex-TV Rádio Clube. Começou como afiliada da Record, passou pela TV Excelsior e só depois viraria Globo. A primeira voz ouvida na telinha, entretanto, antes do próprio Sélem Domingos, foi a da garota-propaganda Marilena Galoti, que anunciou oficialmente o início das transmissões.
 
O estrago que fez na TV Goiânia não se resumiu à boa equipe que formou. Quando entrou no ar, Jaime Câmara já adquirira um videotape, que permitia que parte da programação (a que vinha de fora) fosse gravada. Jaime foi um visionário. Com seus dois irmãos, Câmara Filho e Rebouças, até hoje é lembrado com saudade pelos seus antigos funcionários, pelo seu jeito paternalista de administrar, sempre ouvindo os empregados, sempre pronto para ajudar, o que, muitos dizem, é bem distante da realidade do século XXI. A força com a qual entrou no mercado obrigou a pioneira concorrente a também melhorar o equipamento.
 
Jaime Câmara entregou a tarefa de equipar a Anhanguera a Wanderley Schmaltz, profissional que também tirara da TV Goiânia pagando quase cinco vezes mais, com previsões periódicas de aumento. 
_ E olhe que meu salário já estava bastante razoável — relata Schmaltz.
Demonstrando fome em investir, Jaime mandou-o logo para a Inglaterra. Ao mesmo tempo, a saída deste técnico da TV Goiânia lhe deu alegria e dor. Braga Sobrinho, comandante dos Associados em Goiás, não gostava nem um pouco de perder funcionário. Ainda mais para Jaime Câmara, com quem lutava diariamente em jornal, rádio e televisão.
 
_ Ele me falou cobras e lagartos — lembra-se Wanderley.
Ainda arrasado, surpreendeu-se ao ler na Folha de Goiaz, também dos Diários Associados, de Braga Sobrinho, na nobre página 3, um laudatório elogio à sua capacidade, encimada pelo título: “Os Associados perdem um grande companheiro”.
Wanderley só foi para a Inglaterra porque os equipamentos que Jaime Câmara comprara eram de primeira linha. Ninguém sabia operá-los corretamente, pois o que existia no Estado eram as sucatas da TV Tupi.
 
Não havia problema em desconhecer o modo exato de manejar o aparato televisivo. Naquele tempo de pioneirismo, de aprender-fazendo, por mais inquieto e arrojado que fosse, Jaime Câmara, não podia tudo. Teria de treinar todo o seu corpo de funcionários, a exemplo do que já vinha fazendo Braga Sobrinho.
 
Outro que saiu da TV Goiânia para a Anhanguera foi Euclides Neri. E ele se lembra que por lá inicialmente também só existia uma câmera, com um agravante: o visor estava queimado, ou seja, a imagem captada não aparecia para o cameraman. Este, no caso o próprio Euclides, tinha de mirar a câmera no olho e torcer para estar focalizando o que deveria ir para as casas dos telespectadores. Só um pouco mais tarde apareceria outra máquina, esta em perfeito estado, operada por Marco Antônio Della Corte. Na falta de um ou outro, lá estava Jaime Câmara Júnior, em 2011 o dirigente maior da organização que leva o nome de seu pai, firme e forte operando o equipamento. Foi seu primeiro trabalho.
 
Os entrevistados para este livro sempre comentam que as gerações que vieram após os anos 80 do século XX não conseguem imaginar a rivalidade que existia entre O Popular e a Folha, TV Anhanguera e TV Goiânia, Rádio Anhanguera e Clube. Os seis disputavam o mercado palmo a palmo e, como a capital era pequena, viviam se encontrando na Avenida Goiás, em coberturas da TV, na sede do governo (Palácio das Esmeraldas), solenidades, bancas de revistas. Existia quase uma animosidade entre os concorrentes, que terminou quando O Popular e a própria Anhanguera se distanciaram na preferência da população.
 
Um dos fatos que demonstra essa rivalidade aconteceu em 1969, na data da chegada do homem na Lua, segundo depoimento de Luiz de Carvalho, confirmado, com poucas variações, pelo publicitário Hamilton Carneiro. Não havia transmissão ao vivo desse que foi um dos maiores feitos da humanidade. A expectativa aumentava com as notícias que chegavam via rádio, um meio sempre mais veloz do que a TV. Jaime Câmara, então, pediu que seu motorista fosse buscar a fita do primeiro homem a pisar no satélite em Brasília. Atento, Braga Sobrinho fez o mesmo. Só que, sabe-se lá por quê, trocaram o motorista da TV Anhanguera que, inexperiente, de volta a Goiânia (e apesar de ter chegado primeiro), se perdeu. Perguntou ao primeiro pedestre assim que chegou ao centro da cidade:
_ Onde é a TV Anhanguera?
_ É logo ali.
O motorista entrou no local indicado e perguntou se eles estavam esperando a fita da chegada do homem na Lua.
_ É aqui mesmo. — O emissário deixou o material e zarpou fora.
 
O que o motorista não sabia foi que entregou a fita justo ao concorrente. Quando soube, Braga Sobrinho ficou radiante e simplesmente a segurou até a sua chegar da capital federal. Poderia até ter colocado no ar, mas concorrência tinha limite naquela época.
Quando a fita da TV Goiânia chegou, Braga mandou despachar a outra para Jaime Câmara. E os dois mostraram quase ao mesmo tempo o astronauta Neil Armstrong, o primeiro homem a pisar na Lua, descer no satélite.
 
Tanto o grupo dos Associados quanto o de O Popular tinha um bom nome em Goiás e parecia natural que os dois seguissem pelo caminho da televisão. Se a TV Goiânia levava a vantagem do pioneirismo, a Anhanguera nasceu sabendo onde a concorrente tropeçara e aprendeu os atalhos. Tanto que Jaime Câmara chamou justamente Fued Naciff para fazer o mesmo trabalho que fizera para a TV Rádio Clube: arrecadar no comércio a mais alta quantia possível para colocar a estação no ar. Outra vez Fued correspondeu à tarefa, conseguiu a verba (bem menor do que da primeira vez) e ganhou o espaço que quis quando as primeiras imagens começaram a chegar às casas.
 
A General Novilar acompanhou Fued para a empresa dos Câmara. Em entrevista ao jornal O Popular, em 29 de setembro de 2003, Joaquim da Motta, então com 80 anos, contou ter sido o primeiro anunciante da Anhanguera. Mas na edição especial sobre a história da imprensa, do jornal da Associação Goiana de Imprensa (AGI), de outubro de 2004, a pioneira teria sido a empresa de massas alimentícias Madremassas. A General Novilar teve mais envolvimento com a nova emissora, mas, pelo seu relacionamento antigo com Fued Naciff, é mais provável que Joaquim tenha confundido, pois deve ter estreado a propaganda da TV Rádio Clube (e sido o primeiro anunciante da TV goiana). Carlitos Verano, da Uniart Propaganda, por exemplo, acha bem possível que a Madremassas tenha sido o comercial inaugural da Anhanguera.
 
Joaquim Motta e sua General Novilar não economizavam com propaganda. Logo no início da estação dos Câmara fechou uma permuta com Jaime para o lançamento do carnê da sorte da loja. A TV e O Popular anunciavam e a Novilar vendia cupons que funcionavam nos moldes do Baú da Felicidade, de Silvio Santos, com o sorteio de eletrodomésticos e carros.
 
Os aparelhos de televisão vendiam fácil, fácil. Difícil era levar aquele trambolhão pesado para casa, cheio de válvulas. E elas vinham acompanhadas de uma geringonça menor, mas com peso de chumbo: um transformador de voltagem, pois só funcionavam em 110 volts, quando em Goiás se usa 220. Nas vitrines da General os aparelhos ficavam em posição de destaque sobre alguns caixotes enfeitados, embora sempre desligadas. Quando começava a programação, às seis da tarde, os trabalhadores estavam indo para casa e as lojas fechando as portas. Até para assistir aquela novidade, de graça, o pobre não tinha vez.
 
Além da General, Fued criou um programa de calouros patrocinado pelas Lojas Riachuelo. Uma nova janela, como se diz no meio, para o anunciante se abriu em 1964 ou 65 (os depoimentos são conflitantes) quando foi ao ar a primeira novela goiana, intitulada A Família Brodie e comandada pela dramaturga Cici Pinheiro, que adaptou o texto original (do livro Castelo do Homem Sem Alma, de J. Gomes), produziu e dirigiu. Mas antes ela teve de encontrar patrocinadores e, por isso mesmo, segundo o livro Memória do Teatro Goiano, de Hugo Zorzetti, “a direção da TV Anhanguera não acreditava muito no projeto e relutou até o último minuto”.
 
Para contratar os atores, O Popular estampou uma série de anúncios. Foi uma das poucas concessões que Jaime Câmara fez. Segundo Cici, ninguém acreditava em novela de TV. Só nas de rádio. Mas ela já fizera algumas em São Paulo e apostou todas as fichas na produção. Para conseguir estrear, comprou o horário no primeiro dia. Depois conseguiu patrocínio, não sem antes correr a sacolinha no comércio pedindo restos de pano para costurar os figurinos dos atores (roupa usada também servia). O pano não deu para o forro interno e, com o calor do estúdio, as peças grudavam no corpo dos intérpretes. Os ensaios aconteciam na casa de Cici, geralmente depois que os capítulos iam ao ar, às segundas, quartas e sextas. Os próprios funcionários da TV tinham papéis, cujas falas eles decoravam depois do expediente. E todos davam uma mãozinha para confeccionar o cenário.
 
Na novela, deslavadamente, a televisão copiava o rádio, até porque foi a escola na qual aprenderam. Os capítulos se estenderam por três meses e ajudaram o comércio a vender muitos televisores. A população conhecia o formato, que surgira no rádio, e estava curiosa para ver como se comportavam os personagens dos quais anteriormente só se conhecia a voz. Cici Pinheiro, certamente exagerando, deu um depoimento em 1994 segundo o qual A Família Brodie, durante seus seis meses de exibição, deixava as ruas vazias “como em final de Copa do Mundo”. E que “teve gente que construiu casa com o dinheiro que ganhou instalando antenas de TV”.
 
O sucesso de A Família Brodie não tardou. Um dos sinais aconteceu quando um ator foi esbofeteado no Estádio Olímpico, em Goiânia, por ter sido rude com a mãe no capítulo da noite anterior. Cici Pinheiro alternou entre a euforia e o desânimo quando foi chamada à delegacia para dar explicações sobre um pudico beijo transmitido quando faltavam 15 para as 11 da noite. Houve denúncia no Ministério Público e todos os jornais noticiaram. A Família Brodie virou o comentário preferido da cidade e, antes de terminar, ainda deu dor de cabeça a Jaime Câmara, que se materializou quando um fiscal da prefeitura entregou uma multa direto em sua mesa. Para gravar a novela, funcionários da TV Anhanguera subtraíram algumas árvores das redondezas, para com elas amenizar a singeleza do cenário.
 
Apresentadas ao vivo, sem a possibilidade de serem gravadas, não há memória dessa novela e nem das que vieram depois, a não ser em raras fotografias que não traduzem o frenesi de suas produções. Com duração aproximada de uma hora por capítulo e apesar das centenas de problemas técnicos que os programas ao vivo sempre trazem, os anunciantes aprenderam de forma rápida que aquela era uma mídia interessante. Nenhum deles se assustava com os imprevistos, mais folclóricos do que trágicos.
 
Na TV Anhanguera, em 1968, ia ao ar outra novela, Drácula, o Rei da Noite. Imaginem cemitérios, castelos medievais, roupas bufantes e muito sangue de ketchup, em uma história que acontecia nos anos de 1700, levando-se em conta os humildes recursos da televisão goiana. A coisa ia bem até que o operador de boom (um microfone sustentado por uma comprida haste, responsável pela captação do som) entrou bêbado no estúdio. O boom não pode aparecer na cena, fica sobre a cabeça de quem estiver falando para que o telespectador possa ouvir o que é dito. Ou melhor, deveria ficar “invisível” durante as tomadas se o operador não estivesse cambaleando.
 
Naquela noite de 1968, ditadura campeando pelo Brasil afora, e um grupo de atores e técnicos fazia Drácula morder os pescoços goianos. Com um operador de boom que não conseguia segurar o equipamento com firmeza. Pelos monitores, os dois cameramen (aí já eram duas câmeras) desesperados assistiam o microfone dançar, subir e descer, aparecer e desaparecer da tela. O pior estava por vir.
 
Não demorou e o operador de boom tropeçou e caiu com suas roupas simples no meio da novela, camisa apertada de manga curta com botão, calça surrada, um sapato já meio destroçado, bem século XX. Perto do cenário e das roupas do século XVIII, parecia um ET. E ele desabou destruindo o cenário. Do jeito que despencou no chão, por lá ficou. Com tudo sendo transmitido ao vivo, aos atores só restava fazer de conta que nada estava acontecendo. Essa a parte fácil. Complicado foi arranjar um jeito de ficar próximo do boom, que despencara ao lado do bebum, para que a voz pudesse ser ouvida na transmissão. A única maneira foi cada ator se agachar e dizer o seu texto. 
 
Nunca, em toda a história, o príncipe das trevas fora tão humilhado.
Quando essas gafes aconteciam, o que os técnicos podiam esperar de melhor era que as imagens fossem tiradas do ar. Se isso acontecia, entrava o padrão da emissora: a imagem de um índio curumim para a TV Goiânia e do bandeirante para a Anhanguera. Enquanto isso ouvia-se uma musiquinha irritante de fundo. Só voltavam a transmitir quando toda a trapalhada estivesse solucionada. 
 
O recurso de zoom, aquele em que a câmera se aproxima de uma imagem distante, era ficção. O cameraman, nesses casos, tinha simplesmente de se aproximar da pessoa. Uma vez Euclides Neri recebeu a ordem de chegar mais próximo de uma cantora com sua câmera. Não contava com a precariedade do estúdio, todo de tacos. A aparelhagem, montada sobre pequenas rodas, emperrou em um deles e caiu sobre a cantora. Quem tinha TV assistiu ao desespero de ambas as partes.
 
Com uma propaganda da Móveis de Aço Fiel aconteceu pior. Apresentado por um homem (que inexplicavelmente não era chamado de garoto-propaganda, mas de locutor ou publicitário), o texto dizia das vantagens de um cofre. Entre adjetivos como resistente, durável e seguro, a pessoa ia apresentando o produto sob todos os ângulos. Um puxão mais forte arrancou inesperadamente a tampa, desmentindo ao vivo tudo o que acabara de dizer. Como perder o cliente era uma hipótese que jamais passa pela cabeça de quem trabalha com propaganda, o apresentador emendou imediatamente:
_ E vejam, senhoras e senhores, além de tudo ainda tem esta brilhante inovação: um teto removível.
As garotas-propaganda protagonizaram momentos não menos hilários. Euclides se lembra que uma delas, Vanilda Cunha, ao entrar no ar, ao invés de dizer o texto do comercial, anunciou de supetão:
_ Acho que vou desmaiar.
E caiu dura.
 
A qualidade daqueles primeiros comerciais de TV foi melhorando de forma vertiginosa. Se na imprensa foram praticamente 100 anos sem nenhum novidade técnica digna de nota (entre os séculos XVIII e metade do XX), na televisão goiana elas demoraram apenas 10 anos para acontecer. Dos toscos cartazes de 1962, que mudavam da mesma maneira que se passa uma página de caderno, em menos de dois anos a TV Goiânia já comprara o seu canhão de slides. Basicamente era um acessório de cerca de 40 centímetros acoplado na frente da câmera, uma caixinha onde cabia um número determinado de slides (pequenas fotos de material transparente, por onde passava a luz) e que permitia ao próprio cameraman a troca, de acordo com o texto dos anúncios.
 
Cerca de mais dois anos se passaram e entrou em funcionamento o telecine. Tudo já podia ter sua imagem gravada, sem som, em um rolo de filmes, como o dos cinemas. Não mais se necessitava da câmera do estúdio, que ficava livre para produzir apenas as imagens ao vivo. Apareceram os primeiros projetores (também como os de cinema), que enviavam as imagens em movimento para as casas. Os filmes continuavam mudos, com o áudio (som) em separado, liberados em sincronia com as imagens, o que nem sempre dava certo. Assim, quando entrava um filme, um profissional tinha de tocar um disco (muitos produzidos em uma produtora de áudio pioneira, a Embalo — um nome bem anos 60 —, do locutor Íris Mendes) de acetato no momento exato em que a imagem exigisse. Para as novas gerações, disco de acetato é similar ao de vinil, o pai do CD. Imensos (quatro vezes o tamanho de um CD) e pesados, tinham uma qualidade inferior às tecnologias do início do século XXI. Mas para um meio incipiente, ainda em mono, estava ótimo. O problema era o profissional acertar o momento exato de começar a tocá-lo, por ser difícil conjugar voz e imagem. Ou a pessoa falava antes ou depois. Parecia filme mal dublado.
 
O primeiro comercial com som da televisão goiana foi para o cliente Vip Modas, criado pela Planalto Propaganda (em 2011 Uniart Propaganda), de Carlitos Verano, e produzido pela Makro Vídeo. Era um passo além do que se fazia, chamado de som ótico. Antes de entrar a década de 70 chegou o videotape, um formato que continua ainda em 2011. Foi o último grande avanço em termos de equipamento, que está perto de ser superado totalmente pelas imagens digitais. O videotape não necessitava dos imensos rolos de filme, era apenas uma fita, bastante grande para os padrões do século XXI, mas com som (chamado magnético) e imagem de qualidade superiores.
 
Não dá para contar, nos anos 60 e 70, quantos comerciais ou programas regionais passavam diariamente pelas duas TVs goianas e nem as centenas de erros tão ou mais grosseiros como os já citados. Muito rapidamente a televisão criou o hábito das pessoas chegarem à noite em casa e ligarem o aparelho. Nem precisava de pesquisa para constatar o fato. Tudo que ia ao ar, com exceção de filmes, produzia-se internamente em Goiás. A identidade com o Estado era incomensurável. As conversas passaram a girar sobre a programação.
 
Veículo de comunicação novo, a televisão chocou Geracina Magdalena dos Santos, famosa com o nome de Magda Santos, que veio para trabalhar na emissora dos Câmara nos primeiros dias da Anhanguera. Nascida em 10 de julho de 1936 em Itumbiara, passou por rádios de Ribeirão Preto e Rio de Janeiro. Chegou a Goiânia nos primeiros dias da Anhanguera, “uma época em que a gente, como diz a gíria, passava, lavava e entregava, ou seja, todo mundo fazia tudo”.
 
Para Magda, a estação foi um espaço altamente democrático, onde qualquer pessoa tinha direito aos seus 15 minutos de fama. Ia ao ar qualquer artista, fosse ou não artista. Neste contexto, não se constituía novidade o fato de uma imensidão de programas pipocarem na telinha.
Magda mesmo teve o seu a partir de 1966, O Mundo É das Crianças, todos os domingos, duas da tarde. Seu coração batia tão forte pelo meio, que a itumbiarense escrevia, ensaiava, produzia e apresentava a atração, que durou até 1977. Fazia tudo isso justo no domingo, seu dia de folga. Até morrer, Magda sonhava em voltar a comandar o show. No material que deixou para a família há um projeto inédito de se fazer um Mundo É das Crianças 2, maior, como um grande circo aberto para os novos talentos mirins.
 
No início da década de 70, Magda descobriu um engraxate da Avenida Anhanguera com cara de índio (parecia a antiga logomarca da emissora), mas que cantava divinamente afinado. Como quase toda pessoa muito pobre, só tinha o primeiro nome, Zezinho, que sairia do estúdio da Anhanguera direto para uma carreira de sucesso, interpretando músicas internacionais e com outro nome (Zezinho, definitivamente, não dava): Christian, anos depois o famoso músico da dupla com Ralf.
 
O Mundo é das Crianças foi um programa de muito sucesso e audiência, fato raríssimo para 2011, quando praticamente toda a programação vem de outros centros. Idem para A Juventude Comanda, uma lendária atração dirigida pelo jornalista Arthur Rezende. Nascido em Arizona, em 14 de março de 1943, Arthur foi parar na Anhanguera vindo do rádio, onde havia sido discotecário (estávamos na época dos discos de vinil), programador, produtor e apresentador. A Juventude durou de 1964 a 69, tudo ao vivo, com apresentações musicais locais e nacionais, pegando carona no sucesso da Jovem Guarda, o movimento criado por Roberto e Erasmo Carlos no final da década de 60. Daquela época há uma foto memorável de Arthur com o rei Roberto, ambos mais para hippies do que para artistas.
 
Pela Juventude passaram Ângelo Máximo, Odair José e inusitados convidados, como o arcebispo de Goiânia, dom Fernando Gomes dos Santos, que falava com facilidade para os jovens. O então prefeito de Goiânia, Iris Rezende Machado, deu as caras no estúdio, bem como o dublador Siron Franco, mais tarde o nome mais importante das artes plásticas no Estado de todos os tempos.
 
O bom desses programas é que davam lucro. No caso de Arthur, ele só parou de apresentar seu show por vontade própria, como se fechasse um ciclo. Dedicou-se, em seguida, aos memoráveis festivais de música Comunicasom, na década de 70 e virou colunista social de O Popular, onde continua em 2011.
Voltando a Magda, ainda nos final dos anos 60 ela sentiu que trabalhava em um dos locais de mais poder no Estado. Percebeu no dia em que chamou três garotas para apresentarem um quadro. Apareceram 90. 
 
_ E muitas só não vieram por preconceito contra usar roupa curta ou pintura. — contou.
Outra pessoa importante nos primeiros tempos da TV Anhanguera foi Célia Câmara, mulher de Jaime e mãe de Júnior, que na década de 70 abriria uma das mais importantes galerias de arte de Goiás, a Casagrande, embrião da Fundação Jaime Câmara — que em 2011 diminuiu drasticamente de espaço físico, ao deixar a ampla sede que ocupava na Avenida T-2, Setor Bueno. Na prática significa que a família Câmara desativou a galeria de arte, centelha inicial da Casagrande. 
 
Célia, de tanto ficar por ali na emissora, aprendeu rápido os caminhos do que o público gostava. Tinha uma intuição feminina natural para saber o que agradava, o que podia ou não ser feito.
Dona Célia, como era chamada, também, a exemplo do marido, conquistara os funcionários. Mais do que isso, participava ativamente da programação. Fã incondicional da modernidade e da invenção, às vezes tinha de usar muito jogo de cintura, pois acabava entre os empregados e a direção da empresa. Marido e mulher trabalhavam juntos em um tempo em que normalmente a esposa ficava em casa, cuidando da família, bem diferente do que acontece nesta primeira década do século XXI. Até nisso foram pioneiros.
 
Num tempo de experimentalismo, novidade e equipamentos caríssimos, de difícil manutenção, Célia e Jaime tinham um guardião: Wanderley Schmaltz, já diretor técnico, cargo que ocupou durante décadas. Duro, às vezes intransigente, não contemporizava. Funcionário saiu da linha, suspensão ou demissão. O maquinário devia estar limpo e funcionando 100%. Nem precisa dizer que as manutenções e revisões preventivas sempre foram obrigatórios. 
 
Havia quem desse muito trabalho para Wanderley, como Antônio Eustáquio, mineiro de Abaeté que chegou a Goiânia em 25 de junho de 1965. Com o apelido de Taquinho, ele se tornaria um dos mais criativos cameramen de Goiás e um aclamado produtor de filmes e comerciais a partir da década de 70. Caçula de quatro irmãos, antes de vir para capital tinha outra função: goleiro do juvenil do Atlético Mineiro, em Belo Horizonte. Um drama familiar mudaria para sempre sua vida e seu futuro profissional.
 
Quando resolveu visitar os pais em Goiânia, mil promessas bailavam pela sua cabeça, todas com referência ao futebol. Taquinho se imaginava encaminhado na vida, sempre com dinheiro no bolso e bem-vestido. Naquele dia de junho quando esperava uma grandes festa de recepção e a família reunida, um mau sinal o esperava ainda na rodoviária. Ao invés de táxi acabou pegando uma charrete, a conselho da mãe. Não era bem o padrão a que se acostumara em Belo Horizonte.
 
Ao chegar no endereço os pais lhe deram, não existia uma casa no lote, mas 10 cômodos, um grudado no outro, com um banheiro e um chuveiro comum no centro. Sem luz elétrica e sem fogão a gás. Naquele dia Taquinho soube que as coisas nunca mais seriam como antes. Ninguém dava notícia de um de seus irmãos, a base financeira da família. Participante de primeira hora da luta contra o regime militar que estava no poder, na casa dele foram apreendidas 14 metralhadoras e várias granadas. Os agentes da repressão passaram a vigiar a família. O dinheiro minguou. E Taquinho caiu no meio daquele drama.
 
_ Mãe, eu não volto mais para Belo Horizonte — disse Taquinho, tomando uma resolução para a vida toda aos 16 anos.A televisão entrou em sua vida quando um irmão, que já trabalhava na Anhanguera como assistente de cenógrafo, o chamou para conhecer o “ambiente” da emissora. Taquinho foi, viu, gostou e, quando os funcionários da TV souberam que jogava no gol, o convidaram para uma partidinha no final de semana. O mineiro, que já fizera um teste no Vila Nova e fora aprovado, pegou tudo e conquistou a simpatia da equipe. Mais do que isso, acabou se encantando com o companheirismo e a solidariedade de todos, especialmente a família Câmara, que nem parecia dona da empresa.
 
_ Adorava aqueles Câmaras todos, Júnior Câmara, Fernando, Fabiano, que estavam ali, todo dia, ao nosso lado, construindo um grande negócio.
Taquinho entrou para bater prego, cortar papel, operar vídeo, telecine e passou, como todo mundo, a fazer tudo, até se fixar como cameraman. Ainda jogava futebol, no Campinas e Goiânia, mas a bola perdia o encanto.
 
Quando foi “adotado” por outro cameraman da emissora, Euclides Neri, o já ex-jogador entrou de vez na TV, onde ficaria por quatro anos. Mesmo assim, custou a sair. Pediu demissão duas vezes a Jaime Câmara que, com sua autoridade moral, o dissuadia. Como entendeu que não podia com o chefe, Taquinho radicalizou. Escreveu uma carta agradecendo a oportunidade e pedindo para deixar o trabalho em caráter irrevogável. Dessa vez deu certo.
 
Se fosse no século XXI, Taquinho não duraria nem quatro meses no trabalho. Num daqueles primeiros anos da Anhanguera, alguns empregados apostaram em uma ideia sua: 
_ Gente, essas matérias de estúdio estão muito chatas, vamos sair daqui e fazer alguma coisa nova — atentou Taquinho.
Entraram na kombi da emissora e desapareceram por três dias nas ruas, fazendo imagens da cidade. Sem avisar a direção e carregando o equipamento do estúdio.
Quando voltaram, a demissão estava assinada, a pedido de Wanderley Schmaltz. Célia Câmara, nessas horas, se transformava na barreira de proteção dos servidores. E nenhum teve de procurar outra emissora para trabalhar. Pelo menos, não naquele caso. 
 
Outra vez, o mesmo Taquinho resolveu acabar de novo com o marasmo no estúdio tirando uma câmera de seu tripé. Pesada e difícil de manusear, se um equipamento daquele batesse na parede ou caísse no pé de alguém ou no chão daria um prejuízo financeiro e técnico, já que não haveria outra para substituição imediata.
Mas Taquinho arrancou ela assim mesmo e começou a passear com aquele monstrengo de aço pelo cenário. Balançava, subia, abaixava, requebrava, chegava mais perto, afastava, sempre evitando os traiçoeiros buracos do estúdio. O público de casa se surpreendia com aquelas imagens bamboleantes, coisa que nunca tinham visto.
Quem também viu foi Wanderley. De sua casa, em Campinas, ligou na TV:
_ Que loucura é essa? 
A pessoa que atendeu tentou explicar, já conhecendo Schmaltz:
_ É o Taquinho. Ele tirou a câmera mas colocou uma toalha no chão para não danificar o equipamento — uma inverdade — não tem perigo.
_ Chama o Júnior e manda ele tomar essa câmara do Taquinho. E pede pra assinar a demissão.
Ora, Júnior era simplesmente o filho de Jaime Câmara. Se a tarefa fora confiada a ele, o negócio ficara feio.
 
Tímido, Júnior foi ao estúdio e pediu educadamente:
_ O Wanderley pediu pra vir te substituir. 
Taquinho entregou sem resistir e se preparou para ser mandado embora.
No outro dia, descendo a escada de cimento vermelho que dava na televisão, Taquinho encontra com dona Célia, que vinha chegando à empresa:
_ Taquinho, que lindas aquelas imagens de ontem. Foi você mesmo quem inventou aquilo?
_ Foi, dona Célia, e por isso estou indo lá pegar minhas contas.
_ Faz o seguinte. Vai dar uma volta aí pela Avenida Goiás, esfria a cabeça e volte daqui duas horas.
Taquinho desceu sabendo que o emprego estava salvo.
Ao mesmo tempo em que alertava para que atos como aquele não se repetissem, Célia deixava nas entrelinhas que toda audácia seria bem-vinda, desde que significasse maior interesse para o telespectador. Em suas reprimendas a quem ultrapassasse alguma norma, ela sempre dizia:
_ Cuidado, pensem bem antes de fazer qualquer coisa. Assim vocês se complicam e me complicam.
Mas nunca dizia:
_ Não façam de novo.
 
Talvez por ter sido salvo duas vezes de demissão, Taquinho é enfático:
_ Dona Célia foi a verdadeira revolucionária da TV goiana.
O jornalista e pioneiro da emissora José Divino também é adepto da ideia de que Célia fez história dirigindo o primeiro programa dedicado às mulheres em Goiás, o Feminina.
Não apenas ela, mas também Jaime Câmara mandava para o espaço qualquer hierarquia. Mais do que chefe da TV Anhanguera, seus funcionários viam nele uma espécie de pai, pronto para ajudar na compra de material para construção, de presente para o filho, no enxoval do bebê, no adiantamento de salário. O cameraman Euclides Neri, por exemplo, tinha uma adoração por Jaime, que olhava a empresa como uma família. 
 
Qual outra patroa, como Célia, seria capaz de levar pão com mortadela e Coca-Cola todos os domingos no final de tarde para o pessoal da TV? O casal morava no andar superior do prédio de O Popular, em cima do jornal e da rádio e a menos de 50 metros dos estúdios da televisão. Satisfeito por ver a garra daquela molecada na emissora, Jaime Câmara era condescendente ao extremo. Um dia flagrou toda a equipe jogando bola dentro do estúdio, Taquinho mandando brasa no gol, entre as duas câmeras tão queridas e protegidas por Wanderley Schmaltz.
 
Ao invés de passar uma descompostura imediata, achou graça. No outro dia reuniu todo mundo e deu a bronca. Nessas horas sua autoridade se mostrava absoluta. Ninguém piscou. Ou questionou. Foi a última partida de futebol no estúdio.

5 comentários:

  1. Adorei esta matéria, pois quando criança uma de minhas façanhas foi conseguir cantar em três domingos no programa Magda Santos e, numa entrevista antes de minha apresentação, perguntou do que eu gostava de fazer: respondi que gostava de cantar, dançar, nadar... e ela soprava no meu ouvido...estudar...hoje sou a Ana Dâmaso, Profª, Doutora, Livre-Docente e Escritora, da UNIVERSIDADE FEDERAL DE SÃO PAULO, e jamais esqueci daquele momento que me incentivava aos estudos.
    Outra verdade importante de minha história: no Instituto de Educação de Goiás, onde eu estudei, a professora pediu para entrevistarmos uma pessoa importante e eu, nos meus idos 12 anos, fui a emissora, sem agendar, pois naquela época não tínhamos telefone e fui recebida pelo Jaime Câmara. Coincidência ou não hoje tenho um orgulho imenso desse fato, pois jamais imaginei que uma pessoa tão influente e querida em nosso estado seria tão generosa e simples.
    Um forte abraço saudoso a todos,
    Ana R. Dâmaso

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  2. Gostaria de ver uma foto da Magda Santos (O Mundo é das Crianças)

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  3. Gostaria de saber se a Magda Santos chegou a passar pela rádio educadora, em Uberlândia -MG.

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  4. Eu cantei neste programa "o mundo é das criancas" em 1975, quando mudamos de Brasilia para goiânia. Eu tinha 6 anos,cantei "casinha de sapê"e minha irmã com 12 "Tamanco malandrinho",gostaria de ver estas imagens...saudades.

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