segunda-feira, 8 de agosto de 2011

A história da construção da primeira usina de Goiânia

Nádia Lima

Construída na década de 30, Goiânia representava os novos rumos que ecoavam por todo o país: planejada para ser uma cidade de traços modernos, vinha para romper com a tradição rural de Goiás. O decreto nº 2.737, de 20 de dezembro de 1932, instaurou a comissão para definir onde seria erguida a nova capital. Concorrendo com cidades como Pires do Rio e Silvânia, já em março de 1933 Campinas foi a escolhida por apresentar as melhores condições hidrográficas, topográficas e climáticas. Em 24 de outubro daquele ano, a pedra fundamental da cidade foi lançada.

Ao completar três anos, Goiânia passou a contar com uma usina hidrelétrica: a Usina Jaó. A nova capital, que se propunha a ser um exemplo de modernidade, imagem oposta à histórica Cidade de Goiás, já em seus primeiros anos começou a oferecer eletricidade aos seus habitantes. Água encanada e energia elétrica eram privilégios de poucos goianos.

Para fornecer energia para a Cidade de Goiás, por exemplo, foi inaugurada em 1920 uma usina termelétrica a vapor, alimentada por carvão vegetal. As máquinas foram compradas em São Paulo, importadas da Alemanha. Foram trazidas pela estrada de ferro até a Estação do Roncador, em Catalão. O resto do caminho teve de ser cumprido com carro de boi. Seis anos depois, a caldeira da termoelétrica explodiu, causando a morte de um operário e uma senhora que passava no exato momento. Goiás também contava com uma usina hidrelétrica chamada Nossa Senhora da Conceição, instalada na margem direita do Rio Vermelho, em 1924. Grande parte da população fazia uso de lamparinas, velas e lampiões. Por muito tempo as ruas da cidade eram iluminadas a postes de querosene.

As obras da nova capital estavam a pleno vapor e era necessário investir na geração de energia elétrica. Fruto do urbanista Atílio Correia Lima, o projeto de Goiânia previa a organização e zoneamento da cidade, a regulamentação das construções e a prestação de serviços de limpeza esgoto, luz e força. A nova capital reunia as condições favoráveis para a implantação de uma usina: cercada de grande manancial de águas, alvo de grandes investimentos governamentais e acima de tudo, a seu favor estava toda a vontade política para construir uma metrópole moderna.

O Estado firmou um contrato com a empresa de propriedade do engenheiro José Madureira Júnior para a construção de uma usina em trecho especial do Rio Meia Ponte, represado para a formação de um reservatório. Cogitava-se que o lago formado pudesse ser usado para a prática de esportes aquáticos e como espaço para pista de pouso de hidroaviões.

Havia todo um projeto do governo para o local, que incluia “Avenida Parque, da Represa do Jaó, Iate Clube e Jardim Botânico”. Com a construção da represa no Rio Meia Ponte, formaria-se um lago na extensão de quase quatro quilômetros e de grande largura, superior a 500 metros em alguns pontos, para o reaproveitamento da cachoeira do Jaó, que forneceria luz e força a Goiânia. O arquiteto Jerônimo Coimbra Bueno, superintendente das obras, apresentou sugestões e medidas indispensáveis de saneamento, reflorestamento e defesa da salubridade pública.

Os responsáveis pela obra de Goiânia sugeriram medidas imperiosas e indispensáveis- A barragem da represa, em hipótese alguma deveria ser fechada, sem que nas áreas marginais a serem alagadas se procedesse uma limpeza radical, deixando-as isentas de qualquer vegetação, por pequena que fosse, a fim de dar facilidade de escoamento e evitar estagnações perniciosas ou focos de mosquitos.
Ficou projetada uma estrada ao redor de toda a represa de custo ínfimo, e que seria depois ampliada para uma “Avenida Parque”, de contorno, e que tinha como função primordial sanear e manter
constante vigilância nas áreas de terrenos marginais à bacia alagada.

Essa Avenida-Parque, pelos estudos então projetados, viria a ser uma das mais belas avenidas do Brasil Central, contornando um enorme lago artificial (a represa) e ligada ao setor Norte de Goiânia por uma ampla estrada que se denominaria “Avenida das Indústrias”, via de acesso natural às áreas dos terrenos marginais, loteados em pequenos sítios e chácaras, para explorar de avicultura, agricultura, apicultura, siricultura, etc.

Ao longo dessa avenida-parque de contorno — distanciada das bordas da lagoa por um tapete de gramado —, seriam plantadas espécies vegetais de todas as variedades da flora nacional, apresentando-se como que um jardim botânico para atrações de turistas, além de estímulo pelo reflorestamento e o valor econômico de madeiras de lei.

Foram previstas áreas destinadas às instalações de clubes náuticos, “Yate Clube”, regatas, ancoradouros para lanchas, barcos, veleiros e dependências para toda a sorte de esportes aquáticos, como centro de educação física e de diversões,similar à lagoa da Pampulha, em Belo Horizonte.
Desde o início das obras, os engenheiros responsáveis se esforçaram no sentido de que, na área de terreno prevista para esse enorme represa, não fossem vendidas chácaras a quem quer que seja, a fim de não dificultar ou impossibilitar mais tarde, a execução do plano, com a construção dessa avenida-parque de contorno.

Esses planos para a área da usina foram registrados em livro de 1942, de autoria de Geraldo Teixeira Alves, A luta da epopeia de Goiânia. Alguns não foram concretizados na época, mas nasceriam ali duas das grandes vocações daquele local, onde futuramente seriam instalados o Clube de Regatas Jaó e o Aeroporto Santa Genoveva.

O contrato para a construção da Usina Jaó com engenheiro José Madureira Júnior foi rescindido em janeiro de 1936. A responsabilidade foi repassada para a firma Luz e Força de Goiânia Ltda. Os sócios eram os irmãos Levy, Hugo, Maria e Morena Fróes, além dos políticos e empresários Felismino Viana, Hermóneges Guedes Coelho e João Coutinho. Foram instalados dois grupos geradores termelétricos, que passaram a fornecer energia para o canteiro de obra, e, posteriormente, para Goiânia.

E,m novembro do ano de 1936, três anos após o lançamento da pedra fundamental de Goiânia, o Correio Oficial, jornal do governo estadual, anunciava que a primeira-dama do estado teria a honra de dar a partida para a iluminação pública goianiense: “A Exmª Srª Dnª Gercina Borges Teixeira ligou, na grande Usina do Jaó, a chave da rede que iluminou, pela primeira vez, a cidade”. O secretário de governo, João Teixeira Álvares (irmão do interventor Pedro Ludovico Teixeira), e o político e empresário Felismino Viana também participaram da inauguração em 15 de novembro daquele ano.
A usina representou um dos principais ingredientes para o pleno desenvolvimento nos primeiros anos da capital. Com seus 180 “quilovoltsampère” (KVAs) de potência, era grandiosa para os padrões da época, mesmo porque energia era coisa rara em todo o Centro-Oeste e em grande parte do Brasil. Mesmo assim, no início poucas casas tinham o benefício e, onde havia, a falta de luz era constante, o que persistiria pelas duas décadas seguintes.

O nome da usina deriva do nome do córrego. Este por sua vez é uma referência ao grande número de pássaros com esse nome que se aglomeravam às margens do Rio Meia Ponte, uma espécie de grande porte (com cerca de 35 centímetros), típica do Cerrado do Brasil Central, caracterizada pela penagem marrom-escura e piado característico, em tom melancólico. Descrito pela primeira vez em 1820, o jaó é uma ave ameaçada de extinção, tanto pela derrubada das áreas de seu habitat, como por ser facilmente capturado — uma ave que atende ao “chamado”, através da imitação do seu piado.

Altamiro de Moura Pacheco foi um personagem primordial na concretização dessa história, doando ao Estado as terras onde foram construídas as instalações da Usina Jaó, primeira da emergente capital e a terceira em Goiás. Também pertenciam a ele em Goiânia a área do Aeroporto Santa Genoveva, o quartel do Exército e o Parque Ecológico, que foi batizado com seu nome. Altamiro era natural de Suçuapara, em 2011 Bela Vista de Goiás, município da Grande Goiânia. Nasceu em 15 de março de 1896, filho de Francisco Domingos Pacheco e Maria Genoveva de Moura Pacheco (daí a inspiração para o nome do aeroporto). Aos sete anos de idade sua família muda-se para Bonfim, atualmente Silvânia.

Ao completar 16 anos, com o falecimento de seu pai, passou a ter a responsabilidade de criar seus seis irmãos mais novos. Começou a lecionar na zona rural e na cidade. Em 1915, abre uma farmácia em sociedade com outro goiano de renome, Americano do Brasil. O inquieto Altamiro começa a servir no 52º Batalhão de Caçadores no Rio de Janeiro. Em 1918, retorna para Bonfim como promotor público, permanecendo na função até 1921.

No ano seguinte, monta uma farmácia em Bela Vista e muda-se para a cidade. Frequenta a Faculdade de Farmácia da Cidade de Goiás entre 1926 e 1928. Em 1929, ingressa na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro. No ano de 1933 retorna a Bela Vista já formado e monta ali uma clínica médica.
Goiânia passa a ser sua morada logo nos primeiros anos de sua construção, em 1936. Foi dele uma das primeiras instituições médicas da cidade — o Instituto Médico Cirúrgico. Na década de 50 foi designado presidente da Sociedade Faculdade de Medicina, comissão responsável pela fundação da futura Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Goiás.

Acumulava a todas essas atividades a de fazendeiro — possuía grande extensão de terras na capital em diversos municípios goianos, criava gado, além de ter feito inúmeras doações para a edificação de importantes obras em Goiás. A SGPA, Sociedade Goiana de Pecuária e Agricultura, teve em Altamiro um de seus idealizadores e primeiro presidente. Também foi o fundador, em 1945, do Banco Agropecuário de Goiás S.A (BEG), posteriormente comprado pelo Banco Itaú.

Altamiro também esteve diretamente envolvido nas ações para a efetivação da construção de Brasília. Foi escolhido como presidente da Comissão de Desapropriação de Terras para a Construção. Na época, conseguiu um grande feito: realizar a desapropriação de terras que formariam o Distrito Federal de 84 fazendas, a um preço satisfatório para o Estado (80 centavos de cruzeiros por alqueire).

Teve passagem pela União Brasileira de Escritores-Seção de Goiás, Instituto Histórico e Geográfico de Goiás, além de ter presidido o Conselho Estadual de Cultura. Também se aventurou pelo mundo das letras, como autor dos livros Civismo em Ação (1968), Rochedo e Ferrolho (1968), e Xavier de Almeida – Meu Patrono (1974), dentre outros. Doou sua bela mansão do início de Goiânia à Academia Goiana de Letras, na esquina da avenida Araguaia com a rua 15, no Centro, incluindo todos seus livros e documentos. Faleceu aos 100 anos de idade em 10 de junho de 1996, em Goiânia.

3 comentários:

  1. Belo texto! Certamente um pedaço da história que todos os goianos deveriam saber.

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  2. Fantástico. Adorei o texto. Posso usa-lo na minha dissertação? Será sobre o Rio Meia Ponte

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  3. Fantástico. Adorei o texto. Posso usa-lo na minha dissertação? Será sobre o Rio Meia Ponte

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